segunda-feira, 14 de março de 2016

Sobre Animação Cultural, de Vilém Flusser -

“Tendo agora o direito à palavra, apresento-me aqui escarrando com veemência sobre o camarada Papel as injúrias sofridas durante os milhares de anos de convivência com a humanidade, certa de que minha fala está alinhada às convicções de uma grande e representativa parte dos meus.

                É justa e fundamental para o fomento da nossa discussão, regida pela camarada Mesa Redonda, a proposição feita acerca da visão e do entendimento que a humanidade tem sobre nós, Objetos. Amigos, somos e sempre fomos vistos como mediadores das vontades e ímpetos da humanidade, puramente mecanismos destinados a um fim pré-determinado: satisfazer ou facilitar os meios para que a humanidade acredite que está mais perto do fetiche humanizador, o mito fundador da sociedade humana: o deus Progresso.

                Faz-se necessária a tomada de uma atitude afirmativa frente a esta mentalidade pobre que enxerga um de nós como executor de funções pré-concebidas, é preciso por fim rígido a nomeação de objetos derivada desse ponto de vista, ora, deixo a símile: quantos de nossos amigos Copos de requeijão não estão, neste exato momento, sendo copos d’água? Por que manter nomeações restritivas se a vida desses camaradas amplia-se superando o fim imposto? Por acaso se eu lhes mostrasse um exemplar humano e perguntasse do que se trata diriam vocês apenas a função que essa peça exerce durante o horário convencional de trabalho? Ainda que haja uma gigantesca parcela humana sendo tratada e entendida como objeto, não podemos cair no mesmo erro – saibam que essa noção é vital para atingirmos nossa autonomia. Obrigada pela atenção.”

Transcrição da fala da Caneta Preta, 10/03/2016.

Belo Horizonte, MG, Brasil

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