segunda-feira, 14 de março de 2016

O espaço que nos veste e as vestes em que moramos

As provocações realizadas na aula inaugural motivaram diversas reflexões sobre o que distanciaria a Arquitetura e o Vestuário e após degustar diversas posições acabei por me convencer que de fato existem mais similaridades do que distanciamentos já que muitas das funções são cumpridas por ambas, seja a função estética, a questão da construção de uma identidade, do conforto, do lidar com as condições que o meio apresenta, da segurança e uma infinidade de outros pontos comuns. No entanto, ainda assim existe o sentir natural e a linha de raciocínio lógico apontando que há algo capaz de gerar diferenciações, creio que seja uma discussão ampla e que rende diversos aprofundamentos, um desses muitos:

O impulso mais duradouro acerca da questão foi investigar a finalidade de cada um já que, pelo menos ao senso comum, tanto a Arquitetura como o Vestuário têm finalidades específicas relacionada na maioria das vezes à criação de edificações e de vestes, respectivamente; ainda que não concorde plenamente que a Arquitetura e o Vestuário sirvam a algum fim pré-determinado, investi na ideia chegando a questionar então, não para que servem, mas a quem conseguem atender.
Este caminho levou a pensar que, de certo modo, os produtos de vestuário são geralmente pensados para abrigar apenas um usuário, enquanto os produtos da arquitetura são, por sua vez, destinados a vestir o corpo social que utiliza o espaço em questão. Ainda assim não é um afastamento claro, entendo que acaba sendo como uma brincadeira poética que trabalha com a questão do número de seres atendidos.

Sobre Animação Cultural, de Vilém Flusser -

“Tendo agora o direito à palavra, apresento-me aqui escarrando com veemência sobre o camarada Papel as injúrias sofridas durante os milhares de anos de convivência com a humanidade, certa de que minha fala está alinhada às convicções de uma grande e representativa parte dos meus.

                É justa e fundamental para o fomento da nossa discussão, regida pela camarada Mesa Redonda, a proposição feita acerca da visão e do entendimento que a humanidade tem sobre nós, Objetos. Amigos, somos e sempre fomos vistos como mediadores das vontades e ímpetos da humanidade, puramente mecanismos destinados a um fim pré-determinado: satisfazer ou facilitar os meios para que a humanidade acredite que está mais perto do fetiche humanizador, o mito fundador da sociedade humana: o deus Progresso.

                Faz-se necessária a tomada de uma atitude afirmativa frente a esta mentalidade pobre que enxerga um de nós como executor de funções pré-concebidas, é preciso por fim rígido a nomeação de objetos derivada desse ponto de vista, ora, deixo a símile: quantos de nossos amigos Copos de requeijão não estão, neste exato momento, sendo copos d’água? Por que manter nomeações restritivas se a vida desses camaradas amplia-se superando o fim imposto? Por acaso se eu lhes mostrasse um exemplar humano e perguntasse do que se trata diriam vocês apenas a função que essa peça exerce durante o horário convencional de trabalho? Ainda que haja uma gigantesca parcela humana sendo tratada e entendida como objeto, não podemos cair no mesmo erro – saibam que essa noção é vital para atingirmos nossa autonomia. Obrigada pela atenção.”

Transcrição da fala da Caneta Preta, 10/03/2016.

Belo Horizonte, MG, Brasil